terça-feira, 15 de junho de 2010

Post # 3 0


Tenho voltado do meu trabalho todos os dias de taxi. Eu saio meia noite, na Rua da alfândega e quem conhece o Rio de Janeiro sabe que ali nesse horário o centro vira uma terra sem lei. Após ser quatro vezes assaltado no ponto de ônibus exigi que me pagassem um taxi para voltar todos os dias pra casa ou não trabalharia mais ali. Não tinha mais condições psicológicas para isso. Fiquei traumatizado. Minhas exigências foram aceitas.

A empresa onde trabalho tem um convênio com uma companhia de taxi onde nos é concedido vouchers para uso exclusivo com a mesma. Todo santo dia eu ligo para pedir a minha “carruagem”. É engraçado que criamos vínculos, a começar pelos atendentes. Tem uma em especial que já me reconhe pela voz e o atendimento é muito mais rápido. Adoro, pois gasto poucos créditos no celular. Eu passo a imaginar como são essas pessoas. Imagino essa atendente uma bela mulher morena. Tem um rapaz que me parece ser bem jovem e tem uma voz macia e muito sotaque de carioca. Sotaque de carioca da zona sul (que é diferente!). Sotaque carregado, de surfista-lelek.

Os taxistas são um caso a parte. É cada historia que eu ouço... Um deles até escreveu um livro. Até tenho vontade de fazer um documentário com os taxistas que trabalham a noite. Se não me engano foi o 051 quem escreveu o livro.

Agora eles são números para mim: 059, 123, 129, 058... Hoje voltei para casa com o 058 e não foi a primeira vez. Dele me recordo bem. Eu moro em Vila Isabel, a 15 minutos de carro do centro, próximo ao Maracanã (para quem conhece um pouco do Rio poder se localizar). Na primeira viagem que fizemos me contou que nasceu e cresceu em Vila Isabel. Só saiu do bairro quando se casou na década de 80. Passando pela 28 de setembro ele me apontou a casa onde morou, aonde era a casa de uma namorada, próxima a minha. Parece-me que sempre quando ele está disponível ele pega a minha corrida. Não me parece coincidência. Parece que por alguns momentos ele quer visitar o lugar onde foi criado.

Hoje ele ouvia a radio Tupi onde o radialista narrava um assassinato. Um motociclista que quase atropela um mecânico que o xinga. Ele se sentiu ofendido, começaram a discutir. Armado, ele descarregou o pente no sujeito que quase foi atropelado por ele. Analisei ali, ouvindo o relato no radio, onde comecei a minha historia: na violência gratuita. Eu poderia ter sido vitima de alguém transtornado, porém, nunca sofri nenhum tipo de violência física. Poderia ser a minha historia sendo narrada. Mas não.

Num surto de falta de criatividade estou aqui, apagando meu segundo cigarro, enquanto escrevo. E não consigo amarrar um bom final para esse texto. Talvez eu duvide de quem leia ou até mesmo de mim. Só não tenho duvidas de que o 058 vai pegar a minha próxima corrida.

2 comentários:

pointlesswriting disse...

vc ainda não entendeu? 058 é seu anjo da guarda.

Barthô Tarsus disse...

melhor texto do seu blog, tunai! disparado!! tudo excelente e o final foi muito foda, não duvide. bjus